Na tarde deste sábado, grafiteiros e skatistas se reunia no pilotis e pátio do Capanema. Além do espaços, um andar e o mezanino também seguem ocupados. Ainda neste sábado, uma assembleia organizada pelos manifestantes definiria quais seriam os próximos rumos do movimento, inclusive debatendo se o prédio permanece ocupado.
"Não esperávamos esse gesto dele [Temer]. Mas, por enquanto, a ocupação permanece. Mais tarde haverá uma assembleia para definir o que será feito", contou um dos organizadores do ato, Felipe Altenfeder, da rede de coletivos Fora do Eixo. Segundo ele, cerca de 50 pessoas dormem e se revezam na ocupação do palácio.
O deputado federal Chico Alencar (Psol), que também este nesta tarde no Capanema, acredita que o passo atrás de Temer significa mais do que fragilidade política do governo. Para ele, isso mostra que há um problema na "natureza do próprio governo".
"O governo, pela sua origem, pela sua gênese, é um governo fraco, e não sabe bem o que fazer. Como ele tem um predomínio conservador fortíssimo, ele tratou nesse dogma de austeridade de cortar, por exemplo, o MinC. Uma medida desastrada que provocou reações no país inteiro", criticou o parlamentar.
Alencar atribuiu o recuo do governo às manifestações artísticas e populares, que têm pressionado, desde a última segunda-feira, pela volta do MinC. "Eles devem saber que, em uma semana, as decisões desse governo foram extremamente impopulares", sugeriu.
A ocupação começou na última segunda-feira (16). Desde então, o local tem sediado eventos culturais reunindo artistas e manifestantes contra o fim do ministério e a favor do fim do governo Temer.
Artistas participaram de ato
Na última sexta-feira, os músicos Caetano Veloso, Erasmo Carlos, Seu Jorge e Marcelo Jeneci participaram, na noite desta sexta-feira (21), de ato cultural no pilotis do Palácio Gustavo Capanema.
O Tremendão Erasmo Carlos abriu o show cantando "Sou uma criança, não entendo nada". Na sequência, convidou o baiano para dividir o microfone. A dupla cantou junto "De Noite na Cama".
O ícone da Jovem Guarda ficou pouco no palco. Quem comandou a noite foi Caetano, que surpreendeu o público tocando por mais de uma hora.
"O MinC é nosso, é do povo brasileiro", disse Caetano, que evitou discursos, mas executou algumas de suas canções que se consagraram como símbolo de desagravo à ditadura militar, como "Alegria, Alegria".
Caetano passeou por muitos de seus sucessos, como "Força Estranha", "Um Índio", "Terra", "Odara", "Qualquer Coisa", "Tropicália", "Tieta", "Desde que o Samba é Samba" e o recente "Abraçaço", que o fez lembrar do primeiro dia de ocupação do prédio da Funarte. "Quando o Capanema foi abraçado [na segunda-feira], aquilo foi um abraçaço", disse.
Caetano também convidou ao palco o cantor Seu Jorge, com quem cantou "Luz do Sol". Em seguida, o cantor fluminense embalou o público com alguns de seus sucessos, incluindo a expressiva "Zé do Caroço", música de Leci Brandão.
Seu Jorge canta com Caetano (Foto: Daniel Silveira / G1)
Antes da apresentação dos famosos, grupos folclóricos, orquestra de
metais, intervenções poéticas, entre outras manifestações culturais,
marcaram o ato.'Governo ilegítimo'
Os representantes da ocupação do Palácio Capanema fizeram questão de enfatizar, reiteradas vezes, que o protesto realizado ali não é apenas contra a extinção do Ministério da Cultura. Todos os grupos que participam da ocupação - coletivos culturais, grupos de teatros, músicos, estudentes, ativistas - deixam claro que são contrários ao governo do presidente interino Michel Temer, o qual chamam de ilegítimo.
Políticos que se posicionam publicamente contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff e contra Temer também marcaram presença no ato. O senador Lindberg Farias (PT), que chegou ao local acompanhado pela deputada federal Jandira Feghali, foi um dos que puxou o grito de "Fora Temer", sendo acompanhado em coro uníssimo. O parlamentar enalteceu a ocupação dos prédios culturais do país e convocou a população a uma greve geral.
Caetano Veloso interrompeu sua apresentação para passar ao microfone ao deputado estadual Marcelo Freixo, que foi saudado pelo público sob os gritos de "prefeito".
"Isso [a ocupação do Capanema] tem que acontecer em todas as ruas, em todas as praças, porque a democracia custou muito caro pra gente", disse Freixo.
Ocupação
Desde segunda-feira (16), artistas ocupam parte do prédio. Várias outras cidades do país têm manifestações semelhantes.
Com a repercussão negativa da decisão de incorparar o MinC à Educação, Temer já havia anunciado que toda a estrutura da Cultura será mantida – apenas sem o status de ministério. O secretário de Cultura do Rio, Marcelo Calero, foi escolhido como secretário de Cultura no novo MEC.
Shows diários
As manifestações culturais têm ganhado adesão de vários artistas no movimento chamado "Ocupa Capanema".
Na quinta-feira (19), Lenine, Frejat, Leoni e Pedro Luís se apresentaram. Na quarta (18), foi a vez de Arnaldo Antunes e Otto. Na noite de terça (17), outra manifestação teve início com um concerto de violinos. Composições como da Ópera "Carmina Burana" eram executadas enquanto o público acompanhava a melodia cantando "fora Temer".
Fonte G1

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