Se continuar na CBF até o fim do seu mandato, em 2019 – hipótese pouco
provável -, Del Nero vai querer a reeleição e tentará administrar a
resistência de muitos clubes das Séries A e B do Brasileiro que têm
visto em Bandeira de Mello uma liderança emergente.
Já submerso numa crise que impede a transferência de US$ 100 milhões da
Fifa para a CBF, porque a entidade máxima do futebol suspeita da gestão
da confederação, Del Nero sofreria um desgaste político mais acentuado
ainda se visse o Flamengo de Eduardo Bandeira de Mello conquistar o
Brasileiro de 2016.
Por isso, Del Nero não esconde sua torcida contra o Flamengo entre seus auxiliares mais próximos.
Talvez por coincidência, a CBF tenha vetado recentemente a venda de
mando de campo nas rodadas finais do Brasileiro. Isso foi feito dias
depois de o América-MG ‘vender’ o local de seu jogo com o Palmeiras - de
Belo Horizonte para Londrina, cidade em que a torcida palmeirense é
imensa. O Flamengo reclamou, mas não passou disso e vai ter de enfrentar
o América na capital mineira em 16 de novembro.
Agora, o Rubro-Negro se vê diante de outra controvérsia, provocada pelo
árbitro Sandro Ricci no jogo em que venceu o Fluminense por 2 a 1, em
13 de outubro, em Volta Redonda (RJ). O gol anulado de Henrique, que
seria o do 2 a 2 e que estava realmente em impedimento, virou alvo de
investigação pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) por
causa de suposta interferência externa que teria levado Ricci a
invalidar o lance.
Até aí, flamenguistas e tricolores podem apresentar argumentos cada
qual em defesa de seu clube e isso não vem ao caso. O que é de se
estranhar, no entanto, é a reação do presidente do STJD, Ronaldo Botelho
Piacente, que declarou serem robustas as evidências de interferência
externa na decisão de Ricci. Ao se manifestar dessa forma, Piacente
praticamente já antecipou a votação do tribunal – ou seja, o jogo deverá
ser anulado.
“Mais prudente seria que ele tivesse ficado em silêncio e deixado a
procuradoria do STJD se manifestar”, disse ao Terra um especialista em
direito esportivo e figura presente quase toda semana no plenário do
STJD para defender clubes de todo o país.
O presidente do STJD ocupa o posto desde 14 de julho e só chegou lá
graças à interferência externa de Del Nero, que foi seu cabo eleitoral
número 1 em eleição realizada entre os nove auditores de última
instância do tribunal. Piacente havia sido presidente do TJD-SP quando
Del Nero dirigia a federação paulista. Os dois são aliados antigos e
trabalham em conjunto.
Não é preciso ir longe para saber como começaram as rusgas entre Del
Nero e Bandeira de Mello. A Primeira Liga, cada vez mais viva no cenário
nacional, só se manteve até agora em razão do esforço do presidente do
Flamengo. Ele apagou incêndio que se anunciava devastador, meses atrás,
quando Gilvan Tavares jogou a toalha e anunciou sua saída da presidência
da Liga, por razões políticas. Bandeira de Mello o convenceu a voltar
atrás.
A saída de Gilvan, naquele momento, provocaria uma ruptura que
provavelmente esfacelaria o movimento de clubes. Enquanto a Primeira
Liga tentava se impor, a CBF de Del Nero fazia de tudo para boicotá-la.
Esse desencontro permanece até hoje, tanto que a Liga não é reconhecida
oficialmente pela CBF.
O dirigente da confederação teme que uma liga nacional de clubes esteja
sendo semeada por Flamengo e outros grandes do Sul e Sudeste do Brasil.
E nada indica que ele vá diminuir sua disposição de tomar medidas
contrárias à Primeira Liga.
Além dessas questões, há uma outra que também deixa clara a oposição
entre Del Nero e Bandeira de Mello. O presidente do Flamengo está à
frente de um grupo de grandes clubes que ameaçam ir à Justiça para
obrigar a CBF a cumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, que
determina a participação dos clubes das Séries A e B nas assembleias
eletivas da confederação.
Del Nero e seu grupo não admitem isso e tentam, em conversas reservadas
com um e outro presidente de clube, dissuadi-los de recorrer à Justiça.
Convicto de que o sucesso do Rubro-Negro representa uma ameaça ao seu
projeto de poder na CBF, Del Nero tentou em vão uma aproximação com
Bandeira de Mello. Convidou o desafeto para ser o chefe da delegação do
Brasil na Copa América Centenário, em junho, nos EUA – competição em que
a Seleção foi eliminada na primeira fase.
O dirigente do Flamengo aceitou a honraria, em nome de seu clube, mas
voltou atrás dias depois por causa dos maus resultados do time no início
do Brasileiro – havia pressão interna para que não se ausentasse da
Gávea. Como Del Nero não ousaria viajar para o país no qual é denunciado
por corrupção, substituiu Bandeira pelo coronel Antônio Nunes, um dos
vices da confederação.
Bandeira de Mello já tinha ‘dado o bolo’ em Del Nero numa outra
oportunidade. Mas daquela vez em conjunto com presidentes de outros
grandes clubes. Foi em outubro do ano passado, quando o presidente da
CBF recebeu os integrantes da Primeira Liga para uma reunião seguida de
almoço na sede da entidade. Os convidados participaram da primeira parte
do encontro e recusaram a refeição, num claro recado a Del Nero.
Fonte Terra

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