sexta-feira, 8 de julho de 2016

Cemitério na zona sul de SP tem funcionário com colete à prova de balas e 'divisão de torcidas' em enterro

 Não há descanso para quem trabalha no cemitério São Luiz, no extremo sul de São Paulo. O caso do agente de velório Laércio Paulo da Silva é emblemático: para se proteger de possíveis agressões durante os funerais, ele guarda um colete à prova de balas em sua sala no cemitério. "Prefiro sempre conversar, tratar todas as pessoas com respeito, mostrar que o diálogo é o caminho e que um funeral não é lugar para problemas. Mas, em dias em que chegam casos de homicídio para serem velados aqui, é melhor ter o colete comigo, por via das dúvidas."
Os riscos são concretos: a porta de ferro do prédio da administração tem a marca de um tiro, e a atual administradora do cemitério, Zilma Nazarete dos Santos, 47, já precisou sair de sua sala pela porta dos fundos diante de ameaças feitas por um homem armado. É no cemitério, no calor do velório, que muitos buscam acertar as contas com os algozes.
Tranquilidade é um atributo que muitas vezes não se encontra nos velórios no São Luiz. Laércio, o agente de velório, e Zilma, a administradora, contam que, em alguns enterros, as famílias começam a discutir pelos bens de quem morreu ainda enquanto velam seus corpos. E as brigas podem surgir ali mesmo. Para aplacar a situação, guardas-civis metropolitanos são chamados para separar os lados em disputa, do início do cortejo até a chegada ao túmulo, numa espécie de controle de torcidas em estádio de futebol. Quando a situação aperta, a Polícia Militar também é convocada.
Em 2000, um pai foi preso no cemitério após enterrar o próprio filho.
Localizado no Jardim São Luís, a 20 km do centro da cidade e próximo dos bairros do Capão Redondo e do Jardim Ângela, o cemitério é historicamente conhecido por receber um alto número de vítimas de homicídios e também pelo expressivo número de crianças ali enterradas: das 227 mil pessoas sepultadas desde 1981, 90 mil são crianças.
O caso do menino Italo, 10, morto a tiros pela PM no começo do mês passado durante perseguição ao carro que furtara com um colega de 11 anos, é a síntese desses dois fenômenos. Italo foi enterrado na quadra 10 do São Luiz, depois de um velório em que parentes e amigos cobraram que seu caso fosse esclarecido –o que ainda não ocorreu.
Para entender a rotina e as histórias do "cemitério dos homicídios", a Folha acompanhou por uma semana os velórios, enterros e o dia a dia dos funcionários do São Luiz.

Zanone Fraissat/Folhapress
Flores no túmulo do menino Italo, 10, morto por policiais militares após perseguição em junho
Flores no túmulo do menino Italo, 10, morto por policiais militares após perseguição em junho  

Vizinho de bairros violentos, local tem 'parque' e usuários de drogas

Funcionários do cemitério São Luiz preparam covas
Funcionários do cemitério São Luiz preparam covas
DE SÃO PAULO

Inaugurado em agosto de 1981, o São Luiz está próximo de completar 35 anos –é o cemitério municipal mais novo de São Paulo. Seu tamanho impressiona: são 326 mil metros quadrados, área superada apenas pelos cemitérios da Vila Formosa (o maior da América Latina) e da Vila Nova Cachoeirinha. A área do São Luiz equivale a 45 campos de futebol ou um quinto do parque Ibirapuera. Fica aberto 24 horas por dia, mas apenas os velórios funcionam depois das 19h, quando se encerra o expediente do pessoal da administração.
Situado no alto de um morro, o São Luiz oferece uma ampla vista dos arredores. A vizinhança é bastante pobre: há ocupações ilegais, dois conjuntos habitacionais e favelas tanto com barracos de madeira como casas de tijolo sem acabamento, tudo construído de modo desordenado.
A localização do cemitério ajuda a explicar por que recebe tantos casos de violência e por que ganhou a fama de "cemitério dos homicídios".

Vizinho de bairros violentos, local tem 'parque' e usuários de drogas

DE SÃO PAULO

Inaugurado em agosto de 1981, o São Luiz está próximo de completar 35 anos –é o cemitério municipal mais novo de São Paulo. Seu tamanho impressiona: são 326 mil metros quadrados, área superada apenas pelos cemitérios da Vila Formosa (o maior da América Latina) e da Vila Nova Cachoeirinha. A área do São Luiz equivale a 45 campos de futebol ou um quinto do parque Ibirapuera. Fica aberto 24 horas por dia, mas apenas os velórios funcionam depois das 19h, quando se encerra o expediente do pessoal da administração.
Situado no alto de um morro, o São Luiz oferece uma ampla vista dos arredores. A vizinhança é bastante pobre: há ocupações ilegais, dois conjuntos habitacionais e favelas tanto com barracos de madeira como casas de tijolo sem acabamento, tudo construído de modo desordenado.
A localização do cemitério ajuda a explicar por que recebe tantos casos de violência e por que ganhou a fama de "cemitério dos homicídios".

RAIO-X DO CEMITÉRIO SÃO LUIZ

MAPA DO CEMITÉRIO SÃO LUIZ
326 mil m²
é a área do São Luiz, o equivalente a um quinto do parque Ibirapuera
É o 3º maior
cemitério de São Paulo, menor apenas que o Cachoeirinha (350 mil m²) e o Vila Formosa (763 mil m²). A cidade tem 41 cemitérios, 22 deles municipais
227 mil
pessoas estão enterradas ali, o que representa a população de Presidente Prudente (SP)
90 mil
delas são crianças de até 4 anos
Cerca de 20
sepultamentos são feitos por dia
Em 1996, a Organização das Nações Unidas considerou o Jardim Ângela, bairro vizinho, a região mais violenta do mundo. Naquela época, o distrito tinha índices de homicídios superiores aos de Cali, na Colômbia, que vivenciava um dos piores períodos da guerra do narcotráfico. Um pastor evangélico que morou no Jardim São Luís nos anos 1990 e preferiu não se identificar à reportagem relembra os tempos difíceis ali: "A guerra de facções criminosas era fortíssima, já vinham matar rivais aqui dentro do cemitério mesmo".
Mesmo no início dos anos 2000 o Jardim Ângela mantinha uma taxa elevadíssima de homicídios dolosos: mais de 100 casos para cada 100 mil habitantes –no ano passado, a média na cidade, segundo o governo do Estado, foi de 8,56 para cada 100 mil habitantes.
Ainda hoje, a região sul de São Paulo tem média alta de assassinatos na comparação com outras áreas: quatro dos cinco bairros mais violentos da cidade em 2015 estão na região. Juntos, Capão Redondo, Parque Santo Antônio, Parelheiros e Campo Limpo registraram no ano passado 217 das 1.057 vítimas de homicídios da cidade. Rosangela Nunes, 34, abordada pela Folha no velório de um conhecido, é moradora de Parelheiros, bairro ainda mais no extremo sul da cidade, e conta ter medo de ir ao cemitério: "Aqui é muito violento. Você vê, as vítimas aqui são jovens da região que se envolveram com o tráfico, é frequente. Não gosto de vir para esses lados".
Além de quadras e gavetas para sepultamento, o cemitério conta ainda com uma praça da Paz. É nesse espaço que o padre irlandês Jaime Crowe, 71, celebra uma missa no Dia de Finados após a Caminhada pela Vida e Pela Paz, tradição iniciada em 1996. A procissão começa no Jardim Ângela, a 5 km dali, onde fica a paróquia dos Santos Mártires.

Gustavo Roth - 2.nov.2004/Folhapress
Moradores do Jardim Ângela (zona sul) na 9ª Caminhada pela Vida e Paz, em 2004
Moradores do Jardim Ângela (zona sul) na 9ª Caminhada pela Vida e pela Paz, em 2004
Não são apenas os católicos que têm direito a ocupar o São Luiz. As religiões de matriz africana têm no cemitério um espaço afro, o único do gênero na América Latina. Ali, em uma área protegida por grades e um cadeado, são autorizados a fazer seus rituais e oferendas. São proibidos apenas sacrifícios de animais, e pede-se que, depois de três dias, as oferendas sejam recolhidas pelos participantes das cerimônias. "Mas muita gente desrespeita e coloca coisas nos túmulos mesmo", afirma a administradora, Zilma Nazarete dos Santos, 47.
O São Luiz também é o destino final de membros amputados de quem precisa passar por cirurgias e retirar partes do corpo, como pernas ou braços. Esses membros são enterrados nas quadras dedicadas às crianças menores, sepultadas em caixões pequenos.
O cemitério tem uma área para enterros em covas e outra para sepultamentos em gavetas –mais caras e, por isso, menos procuradas. Acima da terra, colados aos muros do cemitério, ficam as centenas de ossários, para onde são transferidos os restos mortais dos cadáveres exumados pelas famílias após três anos da data do enterro, prazo conferido pela prefeitura. Segundo funcionários da administração, no entanto, a exumação ocorre apenas em uma minoria de casos, cerca de 30%. Como o cemitério tem uma política de reutilizar covas, a área utilizada para enterros está limitada e boa parte do terreno não recebe mais sepultamentos. Os mortos que não são exumados ficam abaixo dos caixões mais recentes.

Zanone Fraissat/Folhapress
Familiares acompanham exumação no cemitério São Luiz, na zona sul de São Paulo
Familiares acompanham exumação no cemitério São Luiz, na zona sul de São Paulo
"Tem um pedaço que é quase um parque mesmo. No fim de semana, vem gente empinar pipa aqui, temos pássaros de várias espécies, quero-queros, até gaviões aparecem", afirma a administradora.
Uma dessas áreas hoje inutilizadas abrigava os corpos de indigentes –que hoje não são mais encaminhados para o São Luiz. "Estão aqui 92 mortos do massacre do Carandiru", conta Zilma. No lugar, diversas árvores foram plantadas, o que impede que novos corpos sejam enterrados naquele local.
Mas a área está inutilizada apenas para os mortos. É justamente no entorno daquele local que se percebe a maior concentração de usuários de drogas no cemitério, à luz do dia.
O problema era tão grave, conta Zilma, que mais de 30 pessoas chegaram a viver no São Luiz até o início do ano passado. Depois de dezenas de reuniões, ficou acertado que um trailer da prefeitura para atendimento a usuários de drogas seria instalado em uma rua próxima à entrada do cemitério, considerada "cena de uso de crack".

Zanone Fraissat/Folhapress
Trailer da Prefeitura de São Paulo no cemitério São Luiz
Trailer da Prefeitura de São Paulo no cemitério São Luiz
O equipamento começou a funcionar no ano passado e deu resultados. Em oito meses, o número de viciados circulando pelo São Luiz diminuiu, segundo os funcionários, mas é corriqueiro topar com eles pelo local. Um de seus principais alvos são os banheiros próximos às salas de velório, de onde roubam torneiras para vender e trocar por drogas.
Essa situação, porém, pode piorar em breve. O trailer da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social é itinerante e vai se deslocar para um outro local de uso frequente de drogas na região sul da cidade. "A própria administração do cemitério ainda não sabe disso. Eles devem ficar bem irritados", afirma um funcionário desse serviço que pediu para não ser identificado.
A ADMINISTRAÇÃO
Não bastasse a preocupação em zelar pelo bom estado de conservação do local e dos mortos que abriga, a administração agora também precisa se preocupar com os vivos.
Cerca de 30 pessoas, entre funcionários diretos e terceirizados, trabalham diariamente no cemitério. Há empregados de limpeza, faxina, jardinagem, coveiros, agentes de velório e de atendimento ao público. "Para trabalhar aqui, tem que gostar", diz Zilma, a administradora do cemitério.
Zilma Nazarete dos Santos, 47, tem uma ligação antiga com o São Luiz –que gosta de chamar de "Luizão". Ela começou a trabalhar na administração em 2013, aos 44 anos, por indicação política de Fernando Haddad (PT) –o prefeito é quem nomeia os administradores dos 22 cemitérios municipais da cidade.
Para ela, cuidar do São Luiz é sua missão de vida. "Sou espírita, e acho que nasci pra isso. Tenho uma conexão com o 'Luizão', ele acolhe a gente, é cheio de energia."

Zanone Fraissat/Folhapress
Prédio da administração do cemitério São Luiz, em São Paulo
Prédio da administração do cemitério São Luiz, em São Paulo
A conexão vem da infância, Zilma explica. Nascida em Cascavel, no Paraná, ela acompanhou o pai na mudança para São Paulo. Aos 11 anos, soube que a mãe havia morrido no Paraná, mas não tinha informações sobre onde estava enterrada nem meios para viajar sozinha. Moradora da zona sul, adotou o São Luiz como local para lamentar a perda da mãe. "Vinha para cá, nos anos 1980, e chorava pela morte dela. Adotei esse lugar como parte da minha vida", conta.
Mãe de quatro filhos, avó de cinco netos, Zilma casou cedo, e seu então marido não deixava que estudasse. Só adulta conseguiu concluir o ensino fundamental e prosseguiu com os estudos, apesar das ameaças e agressões do companheiro.
"Eu me formei em radiologia, mas hoje vejo que não foi para cuidar dos vivos. Nunca consegui um emprego na área. Foi para aprender a cuidar dos mortos mesmo."
Antes de obter o cargo de administradora, pelo qual recebe pouco mais de R$ 2.000 por mês (já incluindo benefícios), Zilma atuava em comunidades carentes da zona sul auxiliando políticos do PT. Foi por essa conexão, e por ter feito um curso na área de gestão pública, que conseguiu a entrevista para o emprego de administradora em 2013.

Zanone Fraissat/Folhapress
Lápides no cemitério no extremo da zona sul de SP
Lápides no cemitério no extremo da zona sul de SP
Zilma é detalhista e parece genuinamente preocupada com a manutenção do cemitério. Durante sua administração, concluiu uma reforma nas salas de velório, criou um banheiro com acessibilidade e melhorou os níveis de limpeza.
Seu estilo centralizador e distribuidor de ordens, no entanto, não é muito apreciado pela equipe de funcionários. As desavenças são nítidas e reconhecidas por ambas as partes. "Ela acha que é a dona daqui", afirma um dos funcionários. Outro torce pelo futuro: "Fiquem calmos que logo mais tem eleição e tudo pode mudar". "Sei que muitos não gostam de mim, mas meu trabalho é cuidar do São Luiz, e é isso que procuro fazer", diz Zilma.
Para a administradora, não é justo dizer que o São Luiz é o "cemitério dos homicídios" ou o lugar que só recebe bandidos. "Talvez antes isso fosse verdade, mas, nos últimos tempos, o cemitério é o destino de muita gente de idade, de gente que morre de causas naturais."
Os coveiros que trabalham no lugar, no entanto, têm outra impressão.
OS COVEIROS
"A maior parte das pessoas que vêm pra cá é vítima de violência ou de consumo excessivo de drogas", afirma Vanderlei Alves da Silva, 47, desde 1998 no São Luiz como coveiro –ou melhor, sepultador, pois "coveiro é quem vende couve."
Vanderlei fala com propriedade do assunto. No ano passado, teve de sepultar o próprio primo adolescente, Gabriel, 15, assassinado enquanto trabalhava em um ponto de tráfico. "Sempre falo para os meus dois filhos não se meterem em coisa errada, porque isso não tem final feliz. Ele pagou por fazer o que não devia." O sepultador também enterrou no São Luiz o cunhado, assassinado depois de se envolver com o tráfico. "Aqui é assim, tem muito homicídio mesmo", diz, resignado.
A rotina dos coveiros não é fácil. A equipe de dez pessoas se reveza nas tarefas a cada dia: metade abre covas e faz sepultamentos, a outra metade faz exumações e outros serviços. Começam a trabalhar às 7h, horário em que pegam as pás e se deslocam para abrir as covas do dia. Atualmente, cada um precisa abrir três covas, em média, uma atividade que leva pouco mais de uma hora e meia para ser concluída. Nos anos 90, o número era bem maior, pois o cemitério chegou a receber 40 mortos por dia.
A Folha acompanhou um dia de trabalho dos sepultadores. "Acho normal trabalhar aqui. Talvez as outras pessoas estranhem", afirma Aparecido da Silva, 44, sendo 25 anos de profissão.
Para os trabalhadores, tudo é encarado com naturalidade e humor. Até mesmo nos casos em que as covas foram malfeitas, sem espaço para os caixões, e os sepultadores precisaram cavar ainda mais diante de famílias e amigos na hora do enterro.

Zanone Fraissat/Folhapress
Sepultador Vanderlei Alves da Silva, 47, durante trabalho no cemitério São Luiz
Sepultador Vanderlei Alves da Silva, 47, durante trabalho no cemitério São Luiz
Quem vê de fora estranha. A começar pelo fato de as covas no cemitério serem "refundadas", o que significa que há outros caixões enterrados ali naquele espaço.
Ao atingir certa profundidade (cerca de 70 cm), os sepultadores se deparam com a lápide e o caixão de quem havia sido enterrado lá e não foi exumado pela família nem transferido para ossários após um período de três anos. Nesses casos, quebram a pedra da lápide, raspam a madeira do caixão e até mesmo a roupa dos defuntos. A reportagem presenciou os trabalhadores retirando sapatos em bom estado e trapos de uma das covas.
Vanderlei geralmente não se importa. Chega até a colocar no bolso duas moedas de 50 centavos que encontrou na cova que abria. "O pessoal às vezes joga uma macumba, mas nada de muito valor", comenta.
Houve uma única ocasião em que Vanderlei levou os problemas do trabalho para casa. "Fiquei dois dias sem comer. Tive que reabrir a cova de uma menina assassinada, depois de alguns meses do ocorrido, para que fizessem uma perícia. Colocaram o corpo dela na grama, abriram o corpo que nem bicho, era um cheiro horrível, insuportável."

Zanone Fraissat/Folhapress
Conjunto habitacional próximo ao cemitério, na zona sul de SP
Conjunto habitacional próximo ao cemitério, na zona sul de SP
Já Aparecido relata que nunca se abalou por algo do gênero. "Já fiz cova com revólver apontado na cabeça, embaixo de chuva. Hoje em dia está ótimo. Depois do posto da Guarda Civil Metropolitana, melhorou demais", diz ele, enquanto continua a cavar.
Elisabete Nunes, 53, e outros entrevistados pela reportagem contaram que era frequente, nos anos 1990, que chuvas arrastassem caixões de covas rasas, e que até mesmo ossos ficassem expostos –um relato que não tem confirmação oficial.
O sepultador reclama de duas coisas: de famílias que acusam os coveiros de roubarem flores e dos usuários de drogas que circulam pelo cemitério. "Tem muita família mal educada, que acha que a gente vai revender as flores. Pode ver como isso aqui tá cheio", afirma Aparecido. De fato, ao lado da fileira de covas abertas naquele dia, havia um grande número de flores depositadas em cima de sepulturas recém-utilizadas. As flores e jardins dos túmulos, no entanto, são responsabilidade de outra equipe que trabalha no São Luiz.
OS JARDINEIROS
"Não troco esse serviço por nada", afirma Elisabete da Silva, conhecida como Dete. Ela é uma das 14 pessoas que trabalham na jardinagem do São Luiz. A família toda dela trabalha ali. Seu pai construiu o muro do cemitério, em 1981, e ainda hoje permanece ali como jardineiro, aos 93 anos. Seus três irmãos trabalham como sepultadores, e a irmã, Maria das Graças, trabalha na administração do cemitério. "É um negócio de família, mesmo. Se não tiver um conhecido, dificilmente entra."
Para a família Da Silva, o São Luiz é muito mais que um local de trabalho. "Aprendi a andar de bicicleta aqui, não é um cemitério para a gente, sabe, damos risada, fazemos fofoca. Aí percebemos alguém chorando a poucos metros da gente e, ops, nos contemos", conta Dete.
A jardineira começou a trabalhar ali em 2000. Antes, era recepcionista em um escritório de advocacia no centro da cidade. Hoje, está a cinco minutos a pé de sua casa, também no Jardim São Luís.

Zanone Fraissat/Folhapress
Cruz em túmulo no cemitério São Luiz
Cruz em túmulo no cemitério São Luiz
Dete está acostumada com as vítimas da violência: "Tem muito bandido enterrado aqui, porque os bairros ao redor são violentos". Ela diz que fica triste apenas com mães que perderam seus filhos. "Nessas horas lembro do meu filho e como seria ruim perdê-lo".
Fora isso, a jardineira está sempre bem-humorada. "Eu adoro aquele momento em que as pessoas me perguntam o que eu faço. Faço aquele silêncio por 30 segundos e depois respondo: 'Eu trabalho no cemitério!' Logo em seguida, dou meu cartão. Ninguém quer, mas sei que todo mundo vai precisar", brinca.
A função dos jardineiros nem sempre agrada a todos os que vão para o cemitério São Luiz. Tão logo um enterro acaba, alguém com um jaleco ou camisa verde se aproxima da família para oferecer os serviços, que incluem não só um gramado por cima do túmulo, mas a própria lápide com o nome de quem morreu –a Prefeitura fornece apenas uma estaca de madeira com o número da quadra e o terreno em que o corpo foi enterrado.
Rosangela Nunes, 34, que estava no São Luiz para o enterro de um conhecido, diz que "é um absurdo cobrar pela jardinagem do túmulo. Não devia ser uma obrigação da família". Para manter o local em ordem, é preciso pagar aos jardineiros, funcionários independentes credenciados pelo Serviço Funerário, uma mensalidade que varia de R$ 30 a R$ 50. A instalação da lápide custa de R$ 300 a R$ 500. Muitos optam por contratar os serviços apenas em uma segunda visita ao cemitério, menos abalados pela proximidade da morte.

Perfil dos enterrados revela problemas de saúde, educação e violência da região

Mural com fotos tiradas de lápides de túmulos reaproveitados no cemitério São Luiz
Mural com fotos tiradas de lápides de túmulos reaproveitados no cemitério São Luiz
DE SÃO PAULO

Na manhã de um sábado ensolarado, Maria Guadalupe, 43, foi ao cemitério São Luiz. Queria visitar o irmão, João Batista, que morrera havia exatos sete anos naquele dia, em decorrência de uma doença pulmonar. Já havia, no entanto, outro corpo no túmulo que antes pertencia a ele. "Vim sempre nos primeiros três anos, depois fiquei um tempo sem vir. Mas o que importa é que ele está bem, num lugar bom."
Sem a lápide, que é quebrada pelos coveiros quando abrem novas covas, Maria queria fazer uma homenagem ao irmão: colocar uma foto de João Batista em um mural de fotos logo na entrada do cemitério. O mural, conta com orgulho a administradora Zilma, já foi fotografado até mesmo por artistas alemães.
O espaço começou a ser preenchido há alguns anos, quando um dos sepultadores passou a recolher as fotos que permaneciam em bom estado das lápides quebradas. Na véspera do Dia de Finados, colocou as imagens no muro que separa os ossários do caminho para pedestres. Hoje, são centenas de fotografias, algumas coloridas, outras em preto e branco, e a tradição se mantém: as imagens são incluídas na véspera de Finados.
Os trabalhadores até procuraram pela imagem do túmulo de João Batista, mas não a encontraram. Maria não se desanimou: "Tudo bem, eu posso trazer outra fotografia, vocês podem cobrar pelo serviço". Não era preciso levar a foto até o cemitério: atualmente, os jardineiros produzem a fotografia com imagens enviadas pelo WhatsApp.

Marlene Bergamo - 2.nov.2009/Folhapress
Visitantes fazem homenagens no mural de fotos do cemitério São Luiz, em 2009
Visitantes fazem homenagens no mural de fotos do cemitério São Luiz, em 2009
Por meses, Dayane Aparecida Rodrigues da Silva, 34, visitava quase diariamente o túmulo do segundo filho, um menino recém-nascido que sobreviveu somente alguns minutos após o parto. Fizesse sol ou chuva, os funcionários da administração encontravam Dayane a lamentar a morte prematura. Em muitas dessas visitas, a moradora do Jardim São Luís estava acompanhada da filha mais velha, à época com quatro anos. "Eu arrumava o túmulo do Junior, trazia presentes, coisas caras para enfeitar o espaço, mas, no dia seguinte, não tinha mais nada lá, o que me deixava furiosa". Os viciados em drogas que ocupam o São Luiz levavam os objetos para trocá-los por crack.
Foi o inconformismo com essa situação que levou Dayane à administração do cemitério. "Eu cheguei lá pronta pra bater em alguém", ela relembra, hoje com bom humor. "Eu já tinha quase agredido uma mulher que havia dito que eu merecia perder meu filho, e estive perto disso de novo no São Luiz."
Em vez disso, a administradora do cemitério a chamou para uma conversa. "Foi ótimo. Ela foi uma pessoa de luz no meu caminho, graças a Deus. Eu estava nas trevas. Ninguém tem noção, não dá para ter ideia do sofrimento que é perder um filho dessa maneira. E a Zilma me ajudou quando eu mais precisava", diz Dayane.

Zanone Fraissat/Folhapress
Flores em túmulo no cemitério São Luiz
Flores em túmulo no cemitério São Luiz
Zilma alertou a mãe sobre a necessidade de cuidar da filha mais velha e de se dedicar à família que estava viva. "Eu disse a ela: 'Desse jeito, você vai prejudicar muito a menina. Ela não precisa passar por isso tão nova. Não é para vir ao cemitério todo dia, não é para deixar coisas caras no túmulo, é preciso valorizar o que você ainda tem."
A partir dessa conversa, Dayane e Zilma tornaram-se amigas –uma das duas únicas relações que a administradora do cemitério permitiu que continuasse "da grade para fora". Dayane passou a visitar com menos frequência o São Luiz. Dois anos depois da morte de seu filho, prazo para exumação de crianças, Zilma a ajudou a organizar a cremação do corpo. Hoje, seis meses depois, Dayane ainda visita o São Luiz, como na tarde de um sábado, acompanhada do marido e da filha, contente e ativa. Mas, agora, apenas para conversar com a amiga, que precisa supervisionar o que acontece nos cerca de 20 velórios e sepultamentos diários, segundo média informada pelo Serviço Funerário Municipal de São Paulo.
OS MORTOS
Tão logo chegam, nos carros escuros do serviço funerário, os caixões são encaminhados para a área de velórios do São Luiz. Embora o local conte com oito salas para velórios, recentemente reformadas, a maior parte dos mortos não passa por ali. Isso porque muitas famílias não podem arcar com os R$ 701,37 do pacote básico de homenagens oferecido pelo Serviço Funerário Municipal de São Paulo, que inclui um caixão, seu transporte até o cemitério, enfeites florais, velas, aluguel da quadra em que o enterro ocorrerá, taxa e o uso da sala de velório por até 24 horas. Para crianças, o valor é de R$ 364,58.
Para a maioria dos mortos destinados ao São Luiz, portanto, uma lei municipal de 1991 tem grande importância. A legislação garante a gratuidade no sepultamento daqueles que não têm condições de pagar por todas essas despesas. Em compensação, recebem o caixão mais simples possível e não têm direito ao uso da sala de velório.

Zanone Fraissat/Folhapress
Carrinho usado para o transporte dos caixões no cemitério
Carrinho usado para o transporte dos caixões no cemitério
Para contornar o problema das últimas despedidas, a administração do cemitério criou um local ao qual deram o nome de "capela", mas que nada tem de religioso. Trata-se de um pequeno espaço coberto com uma divisória de azulejos brancos, para que possa ser utilizado por duas famílias ao mesmo tempo. São permitidos 20 minutos para esse último adeus. As flores, mais simples, são compradas logo ao lado da entrada do cemitério. Poucos recebem coroas de flores. Ali, muitos cânticos religiosos são entoados e é recorrente a presença de pastores evangélicos, com a Bíblia debaixo do braço, para liderar uma corrente de orações antes que o caixão seja levado até a quadra onde será enterrado.
O uso de roupas pretas, frequentemente associado ao luto, não é comum no São Luiz. A maior parte das pessoas utiliza trajes comuns, simples, peças de dia a dia. Camisetas e agasalhos de times de futebol, conhecidos ou de várzea, são itens muito mais vistos, assim como calças de moletom e bermudas.
Times de futebol também têm destaque nas milhares de lápides do cemitério. Ao lado de nome completo, fotografia e datas de nascimento e morte, emblemas de clubes são uma das inscrições mais frequentes nessas pedras. Há ainda muitos anjos, especialmente nas quadras dedicadas a crianças, figuras de Nossa Senhora e rosas.

Vera Gonçalves - 26.out.2006/Folhapress
Lápides com homenagens a times no cemitério
Lápides com homenagens a times no cemitério
Afora as imagens, quase nada são rosas no São Luiz. Praticamente todos os funcionários relatam experiências de ameaças de morte, mas ponderam que a situação tem melhorado nos últimos anos. Visitantes e coveiros contam que era comum que furtos e assassinatos fossem praticados dentro do próprio cemitério.
Elisabete Nunes, 53, cuja mãe está enterrada ali, afirma que "antes não dava nem para ficar fora da sala de velório, já assaltavam as pessoas de dia mesmo".
Para os trabalhadores, a melhoria está ligada a dois aspectos: a implantação de uma base da Guarda Civil Metropolitana na entrada do São Luiz, no início dos anos 2000, e à ascensão do crime organizado, que passou a controlar as mortes violentas.

Reportagem Especial Folha de São Paulo


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