Não há descanso para quem trabalha no cemitério São Luiz, no extremo sul
de São Paulo. O caso do agente de velório Laércio Paulo da Silva é
emblemático: para se proteger de possíveis agressões durante os
funerais, ele guarda um colete à prova de balas em sua sala no
cemitério. "Prefiro sempre conversar, tratar todas as pessoas com
respeito, mostrar que o diálogo é o caminho e que um funeral não é lugar
para problemas. Mas, em dias em que chegam casos de homicídio para
serem velados aqui, é melhor ter o colete comigo, por via das dúvidas."
Os riscos são concretos: a porta de ferro do prédio da administração tem
a marca de um tiro, e a atual administradora do cemitério, Zilma
Nazarete dos Santos, 47, já precisou sair de sua sala pela porta dos
fundos diante de ameaças feitas por um homem armado. É no cemitério, no
calor do velório, que muitos buscam acertar as contas com os algozes.
Tranquilidade é um atributo que muitas vezes não se encontra nos
velórios no São Luiz. Laércio, o agente de velório, e Zilma, a
administradora, contam que, em alguns enterros, as famílias começam a
discutir pelos bens de quem morreu ainda enquanto velam seus corpos. E
as brigas podem surgir ali mesmo. Para aplacar a situação, guardas-civis
metropolitanos são chamados para separar os lados em disputa, do início
do cortejo até a chegada ao túmulo, numa espécie de controle de
torcidas em estádio de futebol. Quando a situação aperta, a Polícia
Militar também é convocada.
Em 2000, um pai foi preso no cemitério após enterrar o próprio filho.
Localizado no Jardim São Luís, a 20 km do centro da cidade e próximo dos
bairros do Capão Redondo e do Jardim Ângela, o cemitério é historicamente conhecido
por receber um alto número de vítimas de homicídios e também pelo
expressivo número de crianças ali enterradas: das 227 mil pessoas
sepultadas desde 1981, 90 mil são crianças.
O caso do menino Italo, 10,
morto a tiros pela PM no começo do mês passado durante perseguição ao
carro que furtara com um colega de 11 anos, é a síntese desses dois
fenômenos. Italo foi enterrado na quadra 10 do São Luiz, depois de um
velório em que parentes e amigos cobraram que seu caso fosse esclarecido
–o que ainda não ocorreu.
Para entender a rotina e as histórias do "cemitério dos homicídios", a Folha acompanhou por uma semana os velórios, enterros e o dia a dia dos funcionários do São Luiz.
Zanone Fraissat/Folhapress
Flores no túmulo do menino Italo, 10, morto por policiais militares após perseguição em junho
Vizinho de bairros violentos, local tem 'parque' e usuários de drogas
Funcionários do cemitério São Luiz preparam covas
DE SÃO PAULO
Inaugurado em agosto de 1981, o São Luiz está próximo de completar 35
anos –é o cemitério municipal mais novo de São Paulo. Seu tamanho
impressiona: são 326 mil metros quadrados, área superada apenas pelos
cemitérios da Vila Formosa (o maior da América Latina) e da Vila Nova
Cachoeirinha. A área do São Luiz equivale a 45 campos de futebol ou um
quinto do parque Ibirapuera. Fica aberto 24 horas por dia, mas apenas os
velórios funcionam depois das 19h, quando se encerra o expediente do
pessoal da administração.
Situado no alto de um morro, o São Luiz oferece uma ampla vista dos
arredores. A vizinhança é bastante pobre: há ocupações ilegais, dois
conjuntos habitacionais e favelas tanto com barracos de madeira como
casas de tijolo sem acabamento, tudo construído de modo desordenado.
A localização do cemitério ajuda a explicar por que recebe tantos casos
de violência e por que ganhou a fama de "cemitério dos homicídios".
Vizinho de bairros violentos, local tem 'parque' e usuários de drogas
DE SÃO PAULO
Inaugurado em agosto de 1981, o São Luiz está próximo de completar 35
anos –é o cemitério municipal mais novo de São Paulo. Seu tamanho
impressiona: são 326 mil metros quadrados, área superada apenas pelos
cemitérios da Vila Formosa (o maior da América Latina) e da Vila Nova
Cachoeirinha. A área do São Luiz equivale a 45 campos de futebol ou um
quinto do parque Ibirapuera. Fica aberto 24 horas por dia, mas apenas os
velórios funcionam depois das 19h, quando se encerra o expediente do
pessoal da administração.
Situado no alto de um morro, o São Luiz oferece uma ampla vista dos
arredores. A vizinhança é bastante pobre: há ocupações ilegais, dois
conjuntos habitacionais e favelas tanto com barracos de madeira como
casas de tijolo sem acabamento, tudo construído de modo desordenado.
A localização do cemitério ajuda a explicar por que recebe tantos casos
de violência e por que ganhou a fama de "cemitério dos homicídios".
RAIO-X DO CEMITÉRIO SÃO LUIZ
326 mil m² é a área do São Luiz, o equivalente a um quinto do parque Ibirapuera É o 3º maior cemitério
de São Paulo, menor apenas que o Cachoeirinha (350 mil m²) e o Vila
Formosa (763 mil m²). A cidade tem 41 cemitérios, 22 deles municipais 227 mil pessoas estão enterradas ali, o que representa a população de Presidente Prudente (SP) 90 mil delas são crianças de até 4 anos Cerca de 20 sepultamentos são feitos por dia
Em 1996, a Organização das Nações Unidas considerou o Jardim Ângela, bairro vizinho, a região mais violenta do mundo.
Naquela época, o distrito tinha índices de homicídios superiores aos de
Cali, na Colômbia, que vivenciava um dos piores períodos da guerra do
narcotráfico. Um pastor evangélico que morou no Jardim São Luís nos anos
1990 e preferiu não se identificar à reportagem relembra os tempos
difíceis ali: "A guerra de facções criminosas era fortíssima, já vinham
matar rivais aqui dentro do cemitério mesmo".
Mesmo no início dos anos 2000 o Jardim Ângela mantinha uma taxa
elevadíssima de homicídios dolosos: mais de 100 casos para cada 100 mil
habitantes –no ano passado, a média na cidade, segundo o governo do
Estado, foi de 8,56 para cada 100 mil habitantes.
Ainda hoje, a região sul de São Paulo tem média alta de assassinatos na
comparação com outras áreas: quatro dos cinco bairros mais violentos da
cidade em 2015 estão na região. Juntos, Capão Redondo, Parque Santo
Antônio, Parelheiros e Campo Limpo registraram no ano passado 217 das
1.057 vítimas de homicídios da cidade. Rosangela Nunes, 34, abordada
pela Folha no velório de um conhecido, é moradora de Parelheiros,
bairro ainda mais no extremo sul da cidade, e conta ter medo de ir ao
cemitério: "Aqui é muito violento. Você vê, as vítimas aqui são jovens
da região que se envolveram com o tráfico, é frequente. Não gosto de vir
para esses lados".
Além de quadras e gavetas para sepultamento, o cemitério conta ainda com
uma praça da Paz. É nesse espaço que o padre irlandês Jaime Crowe, 71,
celebra uma missa no Dia de Finados após a Caminhada pela Vida e Pela Paz, tradição iniciada em 1996. A procissão começa no Jardim Ângela, a 5 km dali, onde fica a paróquia dos Santos Mártires.
Gustavo Roth - 2.nov.2004/Folhapress
Moradores do Jardim Ângela (zona sul) na 9ª Caminhada pela Vida e pela Paz, em 2004
Não são apenas os católicos que têm direito a ocupar o São Luiz. As
religiões de matriz africana têm no cemitério um espaço afro, o único do
gênero na América Latina. Ali, em uma área protegida por grades e um
cadeado, são autorizados a fazer seus rituais e oferendas. São proibidos
apenas sacrifícios de animais, e pede-se que, depois de três dias, as
oferendas sejam recolhidas pelos participantes das cerimônias. "Mas
muita gente desrespeita e coloca coisas nos túmulos mesmo", afirma a
administradora, Zilma Nazarete dos Santos, 47.
O São Luiz também é o destino final de membros amputados de quem precisa
passar por cirurgias e retirar partes do corpo, como pernas ou braços.
Esses membros são enterrados nas quadras dedicadas às crianças menores,
sepultadas em caixões pequenos.
O cemitério tem uma área para enterros em covas e outra para
sepultamentos em gavetas –mais caras e, por isso, menos procuradas.
Acima da terra, colados aos muros do cemitério, ficam as centenas de
ossários, para onde são transferidos os restos mortais dos cadáveres
exumados pelas famílias após três anos da data do enterro, prazo
conferido pela prefeitura. Segundo funcionários da administração, no
entanto, a exumação ocorre apenas em uma minoria de casos, cerca de 30%.
Como o cemitério tem uma política de reutilizar covas,
a área utilizada para enterros está limitada e boa parte do terreno não
recebe mais sepultamentos. Os mortos que não são exumados ficam abaixo
dos caixões mais recentes.
Zanone Fraissat/Folhapress
Familiares acompanham exumação no cemitério São Luiz, na zona sul de São Paulo
"Tem um pedaço que é quase um parque mesmo. No fim de semana, vem gente
empinar pipa aqui, temos pássaros de várias espécies, quero-queros, até
gaviões aparecem", afirma a administradora.
Uma dessas áreas hoje inutilizadas abrigava os corpos de indigentes –que
hoje não são mais encaminhados para o São Luiz. "Estão aqui 92 mortos
do massacre do Carandiru", conta Zilma. No lugar, diversas árvores foram
plantadas, o que impede que novos corpos sejam enterrados naquele
local.
Mas a área está inutilizada apenas para os mortos. É justamente no
entorno daquele local que se percebe a maior concentração de usuários de
drogas no cemitério, à luz do dia.
O problema era tão grave, conta Zilma, que mais de 30 pessoas chegaram a
viver no São Luiz até o início do ano passado. Depois de dezenas de
reuniões, ficou acertado que um trailer da prefeitura para atendimento a
usuários de drogas seria instalado em uma rua próxima à entrada do
cemitério, considerada "cena de uso de crack".
Zanone Fraissat/Folhapress
Trailer da Prefeitura de São Paulo no cemitério São Luiz
O equipamento começou a funcionar no ano passado e deu resultados. Em
oito meses, o número de viciados circulando pelo São Luiz diminuiu,
segundo os funcionários, mas é corriqueiro topar com eles pelo local. Um
de seus principais alvos são os banheiros próximos às salas de velório,
de onde roubam torneiras para vender e trocar por drogas.
Essa situação, porém, pode piorar em breve. O trailer da Secretaria
Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social é itinerante e vai se
deslocar para um outro local de uso frequente de drogas na região sul da
cidade. "A própria administração do cemitério ainda não sabe disso.
Eles devem ficar bem irritados", afirma um funcionário desse serviço que
pediu para não ser identificado.
A ADMINISTRAÇÃO
Não bastasse a preocupação em zelar pelo bom estado de conservação do
local e dos mortos que abriga, a administração agora também precisa se
preocupar com os vivos.
Cerca de 30 pessoas, entre funcionários diretos e terceirizados,
trabalham diariamente no cemitério. Há empregados de limpeza, faxina,
jardinagem, coveiros, agentes de velório e de atendimento ao público.
"Para trabalhar aqui, tem que gostar", diz Zilma, a administradora do
cemitério.
Zilma Nazarete dos Santos, 47, tem uma ligação antiga com o São Luiz
–que gosta de chamar de "Luizão". Ela começou a trabalhar na
administração em 2013, aos 44 anos, por indicação política de Fernando
Haddad (PT) –o prefeito é quem nomeia os administradores dos 22
cemitérios municipais da cidade.
Para ela, cuidar do São Luiz é sua missão de vida. "Sou espírita, e acho
que nasci pra isso. Tenho uma conexão com o 'Luizão', ele acolhe a
gente, é cheio de energia."
Zanone Fraissat/Folhapress
Prédio da administração do cemitério São Luiz, em São Paulo
A conexão vem da infância, Zilma explica. Nascida em Cascavel, no
Paraná, ela acompanhou o pai na mudança para São Paulo. Aos 11 anos,
soube que a mãe havia morrido no Paraná, mas não tinha informações sobre
onde estava enterrada nem meios para viajar sozinha. Moradora da zona
sul, adotou o São Luiz como local para lamentar a perda da mãe. "Vinha
para cá, nos anos 1980, e chorava pela morte dela. Adotei esse lugar
como parte da minha vida", conta.
Mãe de quatro filhos, avó de cinco netos, Zilma casou cedo, e seu então
marido não deixava que estudasse. Só adulta conseguiu concluir o ensino
fundamental e prosseguiu com os estudos, apesar das ameaças e agressões
do companheiro.
"Eu me formei em radiologia, mas hoje vejo que não foi para cuidar dos
vivos. Nunca consegui um emprego na área. Foi para aprender a cuidar dos
mortos mesmo."
Antes de obter o cargo de administradora, pelo qual recebe pouco mais de
R$ 2.000 por mês (já incluindo benefícios), Zilma atuava em comunidades
carentes da zona sul auxiliando políticos do PT. Foi por essa conexão, e
por ter feito um curso na área de gestão pública, que conseguiu a
entrevista para o emprego de administradora em 2013.
Zanone Fraissat/Folhapress
Lápides no cemitério no extremo da zona sul de SP
Zilma é detalhista e parece genuinamente preocupada com a manutenção do
cemitério. Durante sua administração, concluiu uma reforma nas salas de
velório, criou um banheiro com acessibilidade e melhorou os níveis de
limpeza.
Seu estilo centralizador e distribuidor de ordens, no entanto, não é
muito apreciado pela equipe de funcionários. As desavenças são nítidas e
reconhecidas por ambas as partes. "Ela acha que é a dona daqui", afirma
um dos funcionários. Outro torce pelo futuro: "Fiquem calmos que logo
mais tem eleição e tudo pode mudar". "Sei que muitos não gostam de mim,
mas meu trabalho é cuidar do São Luiz, e é isso que procuro fazer", diz
Zilma.
Para a administradora, não é justo dizer que o São Luiz é o "cemitério
dos homicídios" ou o lugar que só recebe bandidos. "Talvez antes isso
fosse verdade, mas, nos últimos tempos, o cemitério é o destino de muita
gente de idade, de gente que morre de causas naturais."
Os coveiros que trabalham no lugar, no entanto, têm outra impressão.
OS COVEIROS
"A maior parte das pessoas que vêm pra cá é vítima de violência ou de
consumo excessivo de drogas", afirma Vanderlei Alves da Silva, 47, desde
1998 no São Luiz como coveiro –ou melhor, sepultador, pois "coveiro é
quem vende couve."
Vanderlei fala com propriedade do assunto. No ano passado, teve de
sepultar o próprio primo adolescente, Gabriel, 15, assassinado enquanto
trabalhava em um ponto de tráfico. "Sempre falo para os meus dois filhos
não se meterem em coisa errada, porque isso não tem final feliz. Ele
pagou por fazer o que não devia." O sepultador também enterrou no São
Luiz o cunhado, assassinado depois de se envolver com o tráfico. "Aqui é
assim, tem muito homicídio mesmo", diz, resignado.
A rotina dos coveiros não é fácil. A equipe de dez pessoas se reveza nas
tarefas a cada dia: metade abre covas e faz sepultamentos, a outra
metade faz exumações e outros serviços. Começam a trabalhar às 7h,
horário em que pegam as pás e se deslocam para abrir as covas do dia.
Atualmente, cada um precisa abrir três covas, em média, uma atividade
que leva pouco mais de uma hora e meia para ser concluída. Nos anos 90, o
número era bem maior, pois o cemitério chegou a receber 40 mortos por
dia.
A Folha acompanhou um dia de trabalho dos sepultadores. "Acho
normal trabalhar aqui. Talvez as outras pessoas estranhem", afirma
Aparecido da Silva, 44, sendo 25 anos de profissão.
Para os trabalhadores, tudo é encarado com naturalidade e humor. Até
mesmo nos casos em que as covas foram malfeitas, sem espaço para os
caixões, e os sepultadores precisaram cavar ainda mais diante de
famílias e amigos na hora do enterro.
Zanone Fraissat/Folhapress
Sepultador Vanderlei Alves da Silva, 47, durante trabalho no cemitério São Luiz
Quem vê de fora estranha. A começar pelo fato de as covas no cemitério
serem "refundadas", o que significa que há outros caixões enterrados ali
naquele espaço.
Ao atingir certa profundidade (cerca de 70 cm), os sepultadores se
deparam com a lápide e o caixão de quem havia sido enterrado lá e não
foi exumado pela família nem transferido para ossários após um período
de três anos. Nesses casos, quebram a pedra da lápide, raspam a madeira
do caixão e até mesmo a roupa dos defuntos. A reportagem presenciou os
trabalhadores retirando sapatos em bom estado e trapos de uma das covas.
Vanderlei geralmente não se importa. Chega até a colocar no bolso duas
moedas de 50 centavos que encontrou na cova que abria. "O pessoal às
vezes joga uma macumba, mas nada de muito valor", comenta.
Houve uma única ocasião em que Vanderlei levou os problemas do trabalho
para casa. "Fiquei dois dias sem comer. Tive que reabrir a cova de uma
menina assassinada, depois de alguns meses do ocorrido, para que
fizessem uma perícia. Colocaram o corpo dela na grama, abriram o corpo
que nem bicho, era um cheiro horrível, insuportável."
Zanone Fraissat/Folhapress
Conjunto habitacional próximo ao cemitério, na zona sul de SP
Já Aparecido relata que nunca se abalou por algo do gênero. "Já fiz cova
com revólver apontado na cabeça, embaixo de chuva. Hoje em dia está
ótimo. Depois do posto da Guarda Civil Metropolitana, melhorou demais",
diz ele, enquanto continua a cavar.
Elisabete Nunes, 53, e outros entrevistados pela reportagem contaram que era frequente, nos anos 1990, que chuvas arrastassem caixões de covas rasas, e que até mesmo ossos ficassem expostos –um relato que não tem confirmação oficial.
O sepultador reclama de duas coisas: de famílias que acusam os coveiros
de roubarem flores e dos usuários de drogas que circulam pelo cemitério.
"Tem muita família mal educada, que acha que a gente vai revender as
flores. Pode ver como isso aqui tá cheio", afirma Aparecido. De fato, ao
lado da fileira de covas abertas naquele dia, havia um grande número de
flores depositadas em cima de sepulturas recém-utilizadas. As flores e
jardins dos túmulos, no entanto, são responsabilidade de outra equipe
que trabalha no São Luiz.
OS JARDINEIROS
"Não troco esse serviço por nada", afirma Elisabete da Silva, conhecida
como Dete. Ela é uma das 14 pessoas que trabalham na jardinagem do São
Luiz. A família toda dela trabalha ali. Seu pai construiu o muro do
cemitério, em 1981, e ainda hoje permanece ali como jardineiro, aos 93
anos. Seus três irmãos trabalham como sepultadores, e a irmã, Maria das
Graças, trabalha na administração do cemitério. "É um negócio de
família, mesmo. Se não tiver um conhecido, dificilmente entra."
Para a família Da Silva, o São Luiz é muito mais que um local de
trabalho. "Aprendi a andar de bicicleta aqui, não é um cemitério para a
gente, sabe, damos risada, fazemos fofoca. Aí percebemos alguém chorando
a poucos metros da gente e, ops, nos contemos", conta Dete.
A jardineira começou a trabalhar ali em 2000. Antes, era recepcionista
em um escritório de advocacia no centro da cidade. Hoje, está a cinco
minutos a pé de sua casa, também no Jardim São Luís.
Zanone Fraissat/Folhapress
Cruz em túmulo no cemitério São Luiz
Dete está acostumada com as vítimas da violência: "Tem muito bandido
enterrado aqui, porque os bairros ao redor são violentos". Ela diz que
fica triste apenas com mães que perderam seus filhos. "Nessas horas
lembro do meu filho e como seria ruim perdê-lo".
Fora isso, a jardineira está sempre bem-humorada. "Eu adoro aquele
momento em que as pessoas me perguntam o que eu faço. Faço aquele
silêncio por 30 segundos e depois respondo: 'Eu trabalho no cemitério!'
Logo em seguida, dou meu cartão. Ninguém quer, mas sei que todo mundo
vai precisar", brinca.
A função dos jardineiros nem sempre agrada a todos os que vão para o
cemitério São Luiz. Tão logo um enterro acaba, alguém com um jaleco ou
camisa verde se aproxima da família para oferecer os serviços, que
incluem não só um gramado por cima do túmulo, mas a própria lápide com o
nome de quem morreu –a Prefeitura fornece apenas uma estaca de madeira
com o número da quadra e o terreno em que o corpo foi enterrado.
Rosangela Nunes, 34, que estava no São Luiz para o enterro de um
conhecido, diz que "é um absurdo cobrar pela jardinagem do túmulo. Não
devia ser uma obrigação da família". Para manter o local em ordem, é
preciso pagar aos jardineiros, funcionários independentes credenciados
pelo Serviço Funerário, uma mensalidade que varia de R$ 30 a R$ 50. A
instalação da lápide custa de R$ 300 a R$ 500. Muitos optam por
contratar os serviços apenas em uma segunda visita ao cemitério, menos
abalados pela proximidade da morte.
Perfil dos enterrados revela problemas de saúde, educação e violência da região
Mural com fotos tiradas de lápides de túmulos reaproveitados no cemitério São Luiz
DE SÃO PAULO
Na manhã de um sábado ensolarado, Maria Guadalupe, 43, foi ao cemitério
São Luiz. Queria visitar o irmão, João Batista, que morrera havia exatos
sete anos naquele dia, em decorrência de uma doença pulmonar. Já havia,
no entanto, outro corpo no túmulo que antes pertencia a ele. "Vim
sempre nos primeiros três anos, depois fiquei um tempo sem vir. Mas o
que importa é que ele está bem, num lugar bom."
Sem a lápide, que é quebrada pelos coveiros quando abrem novas covas,
Maria queria fazer uma homenagem ao irmão: colocar uma foto de João
Batista em um mural de fotos logo na entrada do cemitério. O mural,
conta com orgulho a administradora Zilma, já foi fotografado até mesmo
por artistas alemães.
O espaço começou a ser preenchido há alguns anos, quando um dos
sepultadores passou a recolher as fotos que permaneciam em bom estado
das lápides quebradas. Na véspera do Dia de Finados, colocou as imagens
no muro que separa os ossários do caminho para pedestres. Hoje, são
centenas de fotografias, algumas coloridas, outras em preto e branco, e a
tradição se mantém: as imagens são incluídas na véspera de Finados.
Os trabalhadores até procuraram pela imagem do túmulo de João Batista,
mas não a encontraram. Maria não se desanimou: "Tudo bem, eu posso
trazer outra fotografia, vocês podem cobrar pelo serviço". Não era
preciso levar a foto até o cemitério: atualmente, os jardineiros
produzem a fotografia com imagens enviadas pelo WhatsApp.
Marlene Bergamo - 2.nov.2009/Folhapress
Visitantes fazem homenagens no mural de fotos do cemitério São Luiz, em 2009
Por meses, Dayane Aparecida Rodrigues da Silva, 34, visitava quase
diariamente o túmulo do segundo filho, um menino recém-nascido que
sobreviveu somente alguns minutos após o parto. Fizesse sol ou chuva, os
funcionários da administração encontravam Dayane a lamentar a morte
prematura. Em muitas dessas visitas, a moradora do Jardim São Luís
estava acompanhada da filha mais velha, à época com quatro anos. "Eu
arrumava o túmulo do Junior, trazia presentes, coisas caras para
enfeitar o espaço, mas, no dia seguinte, não tinha mais nada lá, o que
me deixava furiosa". Os viciados em drogas que ocupam o São Luiz levavam
os objetos para trocá-los por crack.
Foi o inconformismo com essa situação que levou Dayane à administração
do cemitério. "Eu cheguei lá pronta pra bater em alguém", ela relembra,
hoje com bom humor. "Eu já tinha quase agredido uma mulher que havia
dito que eu merecia perder meu filho, e estive perto disso de novo no
São Luiz."
Em vez disso, a administradora do cemitério a chamou para uma conversa.
"Foi ótimo. Ela foi uma pessoa de luz no meu caminho, graças a Deus. Eu
estava nas trevas. Ninguém tem noção, não dá para ter ideia do
sofrimento que é perder um filho dessa maneira. E a Zilma me ajudou
quando eu mais precisava", diz Dayane.
Zanone Fraissat/Folhapress
Flores em túmulo no cemitério São Luiz
Zilma alertou a mãe sobre a necessidade de cuidar da filha mais velha e
de se dedicar à família que estava viva. "Eu disse a ela: 'Desse jeito,
você vai prejudicar muito a menina. Ela não precisa passar por isso tão
nova. Não é para vir ao cemitério todo dia, não é para deixar coisas
caras no túmulo, é preciso valorizar o que você ainda tem."
A partir dessa conversa, Dayane e Zilma tornaram-se amigas –uma das duas
únicas relações que a administradora do cemitério permitiu que
continuasse "da grade para fora". Dayane passou a visitar com menos
frequência o São Luiz. Dois anos depois da morte de seu filho, prazo
para exumação de crianças, Zilma a ajudou a organizar a cremação do
corpo. Hoje, seis meses depois, Dayane ainda visita o São Luiz, como na
tarde de um sábado, acompanhada do marido e da filha, contente e ativa.
Mas, agora, apenas para conversar com a amiga, que precisa supervisionar
o que acontece nos cerca de 20 velórios e sepultamentos diários,
segundo média informada pelo Serviço Funerário Municipal de São Paulo.
OS MORTOS
Tão logo chegam, nos carros escuros do serviço funerário, os caixões são
encaminhados para a área de velórios do São Luiz. Embora o local conte
com oito salas para velórios, recentemente reformadas, a maior parte dos
mortos não passa por ali. Isso porque muitas famílias não podem arcar
com os R$ 701,37 do pacote básico de homenagens oferecido pelo Serviço
Funerário Municipal de São Paulo, que inclui um caixão, seu transporte
até o cemitério, enfeites florais, velas, aluguel da quadra em que o
enterro ocorrerá, taxa e o uso da sala de velório por até 24 horas. Para
crianças, o valor é de R$ 364,58.
Para a maioria dos mortos destinados ao São Luiz, portanto, uma lei
municipal de 1991 tem grande importância. A legislação garante a
gratuidade no sepultamento daqueles que não têm condições de pagar por
todas essas despesas. Em compensação, recebem o caixão mais simples
possível e não têm direito ao uso da sala de velório.
Zanone Fraissat/Folhapress
Carrinho usado para o transporte dos caixões no cemitério
Para contornar o problema das últimas despedidas, a administração do
cemitério criou um local ao qual deram o nome de "capela", mas que nada
tem de religioso. Trata-se de um pequeno espaço coberto com uma
divisória de azulejos brancos, para que possa ser utilizado por duas
famílias ao mesmo tempo. São permitidos 20 minutos para esse último
adeus. As flores, mais simples, são compradas logo ao lado da entrada do
cemitério. Poucos recebem coroas de flores. Ali, muitos cânticos
religiosos são entoados e é recorrente a presença de pastores
evangélicos, com a Bíblia debaixo do braço, para liderar uma corrente de
orações antes que o caixão seja levado até a quadra onde será
enterrado.
O uso de roupas pretas, frequentemente associado ao luto, não é comum no
São Luiz. A maior parte das pessoas utiliza trajes comuns, simples,
peças de dia a dia. Camisetas e agasalhos de times de futebol,
conhecidos ou de várzea, são itens muito mais vistos, assim como calças
de moletom e bermudas.
Times de futebol também têm destaque nas milhares de lápides do
cemitério. Ao lado de nome completo, fotografia e datas de nascimento e
morte, emblemas de clubes são uma das inscrições mais frequentes nessas
pedras. Há ainda muitos anjos, especialmente nas quadras dedicadas a
crianças, figuras de Nossa Senhora e rosas.
Vera Gonçalves - 26.out.2006/Folhapress
Lápides com homenagens a times no cemitério
Afora as imagens, quase nada são rosas no São Luiz. Praticamente todos
os funcionários relatam experiências de ameaças de morte, mas ponderam
que a situação tem melhorado nos últimos anos. Visitantes e coveiros
contam que era comum que furtos e assassinatos fossem praticados dentro
do próprio cemitério.
Elisabete Nunes, 53, cuja mãe está enterrada ali, afirma que "antes não
dava nem para ficar fora da sala de velório, já assaltavam as pessoas de
dia mesmo".
Para os trabalhadores, a melhoria está ligada a dois aspectos: a
implantação de uma base da Guarda Civil Metropolitana na entrada do São
Luiz, no início dos anos 2000, e à ascensão do crime organizado, que
passou a controlar as mortes violentas.
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